Consultoria Eleitoral

Rodrigo Maia, a Câmara e o futuro

O presidente da Câmara contribuiu para que se formasse na Casa uma ala favorável ao entendimento interpartidário e à mediação de conflitos.

Marco Aurélio Nogueira

Compreensível que, terminada a votação em 1º turno da reforma da Previdência, os holofotes caíssem sobre Rodrigo Maia. O presidente da Câmara foi decisivo para que seus pares aprovassem a proposta por 379 votos, algo emblemático dada a complexidade e a impopularidade da matéria. As especulações foram imediatas: Maia trabalharia por uma candidatura presidencial em 2022.

 

Maia amealhou recursos para dar passos mais ambiciosos no futuro, trafegando pelo território da centro-direita com inflexões liberais e alguma pegada social. O discurso com que Maia encerrou o primeiro dia de votação delineou esse figurino. Não faltaram nele alusões categóricas à desigualdade, aos privilégios e à injustiça do sistema previdenciário, assim como manifestações favoráveis ao prosseguimento das reformas. A mensagem também enfatizou que chegou a hora da Câmara dos Deputados mostrar seu valor, sua independência e seus compromissos com o País, para além de brigas partidárias ou interesses eleitorais.

 

Foi uma mensagem destinada a cortejar os parlamentares e os partidos, fixando na Câmara um polo de poder vigoroso. Ela também demarcou distância diante do Poder Executivo, enfatizando que o Parlamento seria maior e mais generoso que o governo em sentido estrito. A mensagem não foi emitida somente por ele: formou-se no Congresso uma ala favorável ao engrandecimento da instituição. O relator da reforma previdenciária, deputado Samuel Moreira, por exemplo, dedicou-se a costurar um amplo entendimento interpartidário, que desaguou na expressiva votação. A Câmara dos Deputados cresceu como espaço de mediação de conflitos.

 

Mas entre isso e uma candidatura presidencial em 2022 há muita água para correr. O próprio Rodrigo Maia deu o tom, quando disse que “não há soluções que não passem pela política”. Se tiver mesmo pretensões presidenciais, ele terá de fazer política numa intensidade ainda maior.

 

 

Não poderá se limitar a ser o contraponto de Bolsonaro, nem em se cercar dos apoios do “Centrão” e áreas adjacentes mais à direita.

 

 

Terá de levar em conta, antes de tudo, os movimentos de Bolsonaro. Ainda que, até agora, esses tenham sido inócuos e auto-referidos, ou seja, voltados para satisfazer sua base eleitoral mais restrita, é evidente que o Presidente da República tem cartuchos para queimar.

 

Maia precisará falar com todos, olhando particularmente para o centro liberal-democrático e a esquerda. Terá pela frente o núcleo oposicionista que orbita o PT, que tem algum poder de locução, mobilização e agitação. Precisará, ainda, encarar a própria complexidade – e as armadilhas – da agenda reformadora que ele promete encampar, em torno da qual os consensos precisam ser construídos.

 

As alas democráticas da esquerda, que vão bem além do PT, terão de ser integradas em qualquer proposição que busque criar alternativas eleitorais que se proponham a neutralizar o regressismo da extrema-direita e a articular um pacto político-social que impulsione a formação de uma sociedade que distribua renda e direitos, promova a igualdade entre os brasileiros e impulsione o Brasil para uma posição de respeito no sistema internacional. Um Congresso fortalecido é o ambiente adequado para que os embates políticos transcorram de maneira sensata, sem fanatismo e intransigência, para serem então processados pelo Estado e pela sociedade. É um fortalecimento que está a se esboçar, mas que ainda não se consolidou.

 

Desse ponto de vista, mais que pensar em se lançar no mar revolto de uma precoce postulação à Presidência da República, o melhor projeto de Maia apontaria para a concentração de esforços em prol da democracia brasileira, na qual ele poderá desempenhar função de relevo. O futuro, que sempre está cercado por boa dose de indeterminação, só pode chegar depois do presente.


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